Aposentei meus óculos antigos em troca de um atualizado. Incrível como o mundo ficou mais claro e nítido. Olhei meu rosto e vi as linhas que não via, e por um momento pensei em voltar para a velha “semi-cegueira” que tinha.

A realidade chega a ser rude, mas estou mais velho. Não são só aqueles cabelos brancos próximos das temporadas, ou os fios de barba que largaram o quase ruivo por um alvo encaracolado.

Cheguei numa idade que, lembrando-me bem, quando era criança não me imaginava. Me espelhava nos meus pais, não nos meus avós. Via nos últimos algo inalcançável. Era como se eles sempre tivessem sido velhinhos. E meus pais estariam ali, pelos 40 e alguma coisa, esperando eu amadurecer e dar um abraço neles, dizendo “Enfim cheguei em vocês”.

O tempo passa e o passado fica maior, vai ficando gigante, e o futuro não é mais uma aposta a ser dobrada. Hoje, ele já me dobra, e me cobra em pequenas dores por posições mal dormidas, por comidas temperadas, por bebidas em demasia.

Mas, no fundo, o que me faz pensar, o que me faz refletir, é o reflexo no espelho. Aquele que esteve embaçado por uma lente velha e arranhada, fora do grau que era preciso. E a falta de precisão que foi por necessidade.