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Mês: abril 2012

Ser ou não ser, eis a questão em russo

Boris Nicoláievitch Iéltsin feliz depois de umas vodkas

Boris Nicoláievitch Iéltsin feliz depois de umas vodkas

Ser ou não ser, eis a questão. E neste momento todos estão pensando em um homem (Hamlet, de preferência) segurando uma caveira. Mas não, nada disso! Esta cena não tem este texto, mas o título com esta famosa frase da obra de Shakespeare vai nos servir aqui para debater uma curiosidade linguística.

A frase, fácil de se dizer quando o verbo “ser” existe, pode ser um problema quando não se tem esta opção em sua língua nativa. Assim é o russo, um idioma cujo verbo ser “não existe” no presente e onde se diz “eu russo” (ia russkii – desculpem-me nada de caracteres em cirílico ainda) ao invés de “eu sou russo”. Sempre fiquei curioso sobre como diversas questões se resolviam sem este verbo presente. Em um idioma que tem vários modos é surpreendente que não tenhamos um verbo que nos soa tão lógico e necessário à comunicação.

Segundo encontrei pesquisando, o verbo ser no tempo presente era usado no passado 🙂 até o século 19, os textos de Dostoyevsky estão ai para provar, mas hoje em dia este se aplica somente para dar um tom arcaico ao russo. Para piorar as coisas, a terceira pessoa do singular do verbo ser é um hófono do verbo comer. Logicamente isto devia dar muita dor de cabeça e confusão. Quem sabe este não foi o motivo para a “copula” (ligação feita pelo verbo) ter caído? Insinuações e interpretações maldosas eu deixo para vocês.

De uma maneira geral podemos dizer que em russo se fala tudo de maneira mais direta. Ponto para eles! Lembro-me que uma vez li uma resposta em um Blog de um russo que definia que eles são “intensos”. Assim justificava que se no passado foram socialistas até o último fio de cabelo, agora eram capitalistas de carteirinha :-). Assim, esta intensidade se está logicamente refletida no idioma. Nada de gerundismos e outras aberrações linguísticas que ouvimos todos os dias pelo telemarketing. Ninguém vai “estar fazendo” nada na Rússia. La se FAZ, e ponto final! A coisa chega a um ponto que segundo o texto que indico abaixo ninguém diz que está com sede (a palavra nem existe para eles) se diz “eu quero beber”. Ninguém “está andando” na Rússia, as pessoas andam (ele anda é “on idiot”, o que justifica também o fascínio dos russos por carros :-)). Outras situações onde o verbo “ser” não é usado derivam do modo predicativo que assume que o mesmo está incluso na declinação da palavra. Na falta do verbo explicitamente colocado o mesmo é o verbo “ser”, simples assim. E assim vai; não se diz “Está frio”, apenas “frio”, e nem mesmo “eu estou com frio”, apenas “eu frio”. Em alguns momentos parece que estamos lendo ou falando com o Yoda, mas com o tempo tudo faz sentido.

Para uma leitura interessante sobre a questão do verbo “ser” em russo, dê um pulo em http://www.yearlyglot.com/2010/03/to-be-or-not-to-be-in-russian/.

E para uma continuação breve sobre “línguas sem verbos” veja meu outro post sobre Zero Copula (não, não é sobre virgindade)

Ator interpretando Hamlet. Ser ou não ser não é a questão neste momento.

Ator interpretando Hamlet. Ser ou não ser não é a questão neste momento.

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Se Plutão não é mais planeta, como confiar na ciência?

Marcador de final do percurso de prova ciclística "Plutão" da instalação artistica "Segundo Sol" do artista Andrew Small próximo a Marina de Sunderland (UK)

Marcador de final do percurso de prova ciclística “Plutão” da instalação artistica “Segundo Sol” do artista Andrew Small próximo a Marina de Sunderland (UK)

Durante a sessão de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da ação sobre o direito das gestantes interromperem a gravidez nos casos em que há fetos anencéfalos um argumento da ministra Rosa Weber me surpreendeu. A ministra disse, segundo a imprensa, que “se Plutão até pouco tempo era uma planeta e hoje não é mais, como confiar na ciência?”. Incrível frase, com possível efeito devastador, mas o impressionante é que com este argumento ela votou à favor da legalização do aborto. Assim, com um argumento aparentemente contrário se proferiu um voto favorável.

Mas não entremos aqui em um julgamento da questão em sí. Quero falar do argumento estranho, que aponta para um lado e sustentou outro posicionamento. Mais ainda, não vamos entrar na discussão sobre o que levou ao “rebaixamento” de Plutão, que pode ter conotações da política científica ou de regras para se estabelecer o que é ou não planeta. O ponto é que seja qual for o acordo estabelecido pela ciência ao longo dos tempos, este tem o mérito de não ser monolítico, dogmático ou eterno. Não que estas mudanças sejam simples. De certo que os defensores mais poderosos de uma teoria têm que estar já na cova para que as novas ideias sejam aprovadas. Afinal, somos todos humanos, não? No dia que a ciência for verdadeiramente “vulcaniana” ela não terá mais graça (me perdoem a brincadeira “nerd”). Definir onde se desenha a linha de corte não é nunca uma tarefa simples, Occam que o diga. Sua “faca” está na busca do caminho mais simples, mas isto nem sempre o é. 😉

Mas o que prevalece aqui, nesta fala da ministra é uma profunda incompreensão do que é o processo da ciência. Com todas as suas questões, falhas e instabilidades, ainda é o que temos de melhor na busca do conhecimento. É como aquela frase que Winston Churchill disse “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos” (valha-me Nossa Senhora das Citações Encontradas na Internet). A conclusão para mim é de que precisamos dar mais apoio aos nossos juízes quanto as questões científicas, mas sem que tomemos partido da ciência em si.

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