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Mês: julho 2016

Os Cientistas Também Dormem

Fazer um currículo não é fácil. Quem já teve que sair lembrando de tudo o que fez na vida e juntar os documentos comprobatórios necessários sabe como isso é difícil. E para um cientista não é muito diferente. Há que se dedicar tempo à isso. Porém, apesar de muitos dos cientistas brasileiros estarem em instituições públicas, onde gozam de estabilidade no seu emprego, isto não significa que seus currículos podem ser deixados de lado. Ao contrário disso, esta lista de produção é constantemente exigida a cada novo edital, à cada nova tentativa de obter quem sabe algum recurso extra em um Edital Universal (do Reino de Deus? Porque vale rezar nesta hora!) do CNPq.

Já faz um bom tempo que temos na ciência brasileira um sistema desenvolvido no MCTI (foi mal, mas não vai dar para acrescentar um “C”, tá?) do qual muitos já ouviram falar. Trata-se da Plataforma Lattes voltada para a inserção de dados referentes a produção individual dos pesquisadores e uso do seu conteúdo nos processos de avaliação de projetos individuais, ou coleta para dados de produção institucional.

Este já foi motivo de debate por conta de pessoas que deram um “up” no seu Currículo Lattes com umas “coisitas” a mais que não eram de fato verdadeiras, e ao mesmo tempo por dados que foram “escavados” por um site agregador de informações sobre pessoas em geral (dica: o entre aspas é quase o nome do site). Fonte magnífica de dados para pesquisas, hoje se encontra com alguns bloqueios sem vergonha que buscam atrapalhar um pouco as coisas, mas que na prática não são fortes o suficiente para o que pretendem fazer.

Enfim, o que importa é que ele está lá, online hoje em dia (já foi um sistema para você gerar um disquete, e com isso eu denuncio minha idade) e via web (antes tinha um software de atualização) e todos os cientistas precisam mantê-lo atualizado. E é aí que entra a questão: será que esses abnegados seres arrepiados, de óculos e jaleco, passam as horas sem fim atualizando os seus currículos sem descanso. Não, meu caro amigo, Os Cientistas Também Dormem! E mais, eles almoçam e saem para suas casas também lá pelas 18h00. Eu tenho a prova disso, acredite. E obtive ela com dados do próprio CV-Lattes. Vamos lá.

Acontece que quando você termina de atualizar o seu Lattes na Web, é preciso “enviar” os dados para a base. É nessa hora que fica registrado no sistema o último dia e horário de atualização do seu currículo. Há um arquivo online disponível no site do CNPq com essa informação e foi este que eu usei aqui (graças a Iara Vidal, que gentilmente me passou ele). Transformando o arquivo separado por ponto e vírgulas em uma planilha de Excel com quase 4,6 milhões de registros (aviso, não tente fazer isso em casa! Somos profissionais de informação qualificados!) e mais uns tratamentos e temos a figura abaixo.

Horário de Atualização do Lattes

Horário de Atualização do Lattes

Esses incansáveis atualizadores de CVs (Curriculum Vitae para os que vivem no Rio e associam esta sigla à outra coisa) tem seus momentos de clímax entre 11h00 e 11h59 e entre 15h00 e 16h59. Eles param para o almoço, creio eu. :-). Por outro lado, podemos ver o incrível momento do justo sono dos cientistas brasileiros. Tudo começa com uma tentativa mais clara a partir da meia-noite, mas de fato as coisas ficam melhores entre 02h00 e 07h59. Sim, meus amigos, eles dormem, mas dormem provavelmente pouco. É de se esperar com tanta correria para se encaminhar projetos para editais e tantas coisas por lutar no sistema de financiamento da pesquisa brasileira.

Agora eu vou dormir. Boa noite!

P.S.: O gráfico já fala muito por si, mas cabe uma explicação final. Vocês devem ter percebido que o total é inferior aos tais aproximadamente 4,6 milhões de que falei, certo? Pois é. Por algum motivo temos muitos registros que tem como hora as 00h00 exatamente. Como estes estão totalmente fora da curva tive que excluir esta hora e minuto específico. Ao que parece algum dos sistemas do CNPq não registrava a hora de atualização, o que levou à esta distorção.

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Os Blogs estão morrendo? Viva os Blogs!!!

Fazia tempos que não escrevia no Blog. Talvez agora eu tenha uma boa desculpa para isso. Digo desculpa tanto para escrever, quanto para justificar minha ausência. Tudo fruto de um pouco de reflexão a partir deste congresso, o 5º Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria. Os números não mentem, claro, mas podem falar umas coisas bem estranhas e a gente entender errado. Ou quem sabe seja mesmo tudo resultado de uma apropriação indevida de seus objetivos originais. É… no fundo é isso ai. Mas, vamos lá!

Fui para o evento e tive três dias bem empolgantes. Palestras super interessantes em uma sequência rara e com trocas de ideias de fertilizar todos os campos da mente. Mas mais para o final é que veio a situação que me levou a sentar aqui e me dedicar a escrever este texto. Meu Blog está MORTO!!! Ao menos na definição do trabalho “O Estado da Blogosfera Científica Brasileira” de FAUSTO et al. (2016). O trabalho apresentado na mesa que coordenei (Informetria e Webmetria / Altmetria) por uma das autoras (Nathai Teresa Moreno) escolheu o critério de um ano de inatividade como critério para “morte cerebral” do Blog e gerou o atestado de óbito para parte da blogosfera brasileira. Talvez numa tentativa vã de salvar-me, sugeri que se avaliasse estatisticamente a frequência de postagens e depois de umas médias e desvios padrão se chegasse à um critério menos arbitrário. Confesso entretanto que esta “respiração boca a boca” provavelmente faria apenas com que esta minha pobre página estivesse em uma mais profunda decomposição. A única chance era renascer das cinzas, e este texto é minha tentativa inicial.

Mas saindo um pouco do foco e indo na direção dos dados da blogosfera analisados pelo trabalho, vemos que as notícias não são lá muito boas. Depois de um crescimento exponencial de 2006 até 2010, a partir de 2013 se inicia uma queda no número de Blogs científicos ativos cadastrados no Anel de Blogs Científicos (ABC) (figura 1)

Número de blogs ativos em função do tempo. Fonte: ABC Retirado de: FAUSTO, S.; et al. O ESTADO DA BLOGOSFERA CIENTÍFICA BRASILEIRA In: ENCONTRO BRASILEIRO DE BIBLIOMETRIA E CIENTOMETRIA, 5., 2016, São Paulo. Anais... São Paulo: USP, 2016. p. A125

Número de blogs ativos em função do tempo. Fonte: ABC Retirado de: FAUSTO, S.; et al. O ESTADO DA BLOGOSFERA CIENTÍFICA BRASILEIRA In: ENCONTRO BRASILEIRO DE BIBLIOMETRIA E CIENTOMETRIA, 5., 2016, São Paulo. Anais… São Paulo: USP, 2016. p. A125

Uma justificativa levantada pela apresentadora foi de que isto seria resultante da popularização do Facebook e consequentemente da troca de mídia preferencial. Nas palavras dos autores “embora essas mídias não sejam incompatíveis (em geral blogueiros de ciência usam o Twitter e o Facebook para chamar atenção para o seu blog) certamente envolvem maior gasto de tempo pelo divulgador, ao ponto de o número de postagens em seu blog diminuir ou ainda chegar a termo, levando à extinção do mesmo.” (Fausto et al. 2016) Há outras conjecturas, como um amadurecimento da primeira geração de blogueiros e/ou uma nova geração mais engajada com as mídias sociais. O fato é que apesar de não se afirmar que se caminha em direção ao abismo, há uma tendência de baixa. Resta saber se os Blogs serão gradativamente substituídos por páginas no Facebook (que na prática poderiam ser entendidas como apenas um novo suporte em um agregador) e se dentro de algum tempo não veremos a migração das páginas para o já aventado Hello do Orkut. O futuro dirá!

P.S.: Tecnicamente, com este post, posso bradar “It´s alive!” como Dr. Frankenstein 🙂

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