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Categoria: ciência e sociedade

O erro médico é terceira causa de morte nos EUA.

O erro médico é terceira causa de morte nos EUA. É o que fala o artigo Medical error—the third leading cause of death in the US publicado na BMJ 2016; 353 DOI: https://doi.org/10.1136/bmj.i2139 que foi o segundo lugar no Altmetric Attention Score de 2016.

O áudio abaixo é de uma “entrevista” sobre o tema com um dos autores. Bem interessante, e não é atoa que teve tamanha repercussão online. Foi no Facebook o que teve mais reações (likes e demais) em post vinculados ao artigo, o segundo em comentários sobre e o primeiro em compartilhamentos. Já no Twitter cai para quarto em empate técnico com o quinto colocado, e não teve tanto sucesso assim que levasse ao download acadêmico do arquivo (medido aqui indiretamente com a incorporação ao Mendeley).

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Koshik, um elefante que “fala” coreano?

Elefante Asiático

Elefante Asiático com a ponta da tromba na língua. fonte: Stoeger et al. (2012)

Uma vez tentei aprender um pouco de coreano. Uma língua curiosa em tudo, com um alfabeto inventado (o hangul) sob encomenda no século XV, e que usa caracteres chineses também (como o japonês). No hagul os caracteres são formados por uma aglutinação dos símbolos das vogais e consoantes o que faz um leigo pensar que se trata de um ideograma. Apesar de ter alguma proximidade sonora com o japonês, não tem nada a ver com ele e muito menos com o mandarim, que é uma língua tonal. Normalmente os linguistas o colocam com idioma isolado, ou quando muito junto com as línguas altaicas.

Sua sonoridade não é das mais difíceis, para mim me pareceu razoável aprender um pouco. Diria que um papagaio também não teria dificuldade, mas um elefante? Pode parecer impossível, mas incrivelmente foi encontrado no zoológico Samsung Everland na Coreia do Sul (ah… estes pobres animais de cativeiro) um elefante asiático (Elephas maximus) que “falaria” palavras em coreano. Koshik, o elefante, falaria cinco palavras no idioma segundo seus treinadores: ‘annyong’ (‘olá’), ‘anja’ (‘sente-se’), ‘aniya’ (‘não’), ‘nuo’ (‘deite-se’) e ‘choah’(‘bom’). Outra curiosidade é a forma como ele faz isto. O aparelho fonador dos elefantes não permitiria imitar os sons da fala humana, mas colocando a ponta de sua tromba na língua ele consegue modificar os sons produzidos e como num assobio “falar” coreano.

As explicações para esta habilidade adquirida ficam no convívio por cerca de cinco anos apenas com humanos, os tratadores que falam, obviamente, coreano. 🙂 Para testar se os sons que ele produzia eram realmente compreensíveis, Stoeger et al. (2012) fizeram testes apresentando a 47 gravações de suas “falas” para que 16 coreanos ouvissem e escrevessem o que entenderam. Sua pronuncia de vogais foi bem reconhecida, mas Koshik ainda tem que melhorar nas consoantes, e isto você não vai ver nas notícias de jornal. 🙂 Dos cinco sons que os treinadores dizem serem produzidos por Koshik, apenas o primeiro (annyong) foi espontaneamente reconhecido em 56% dos casos pelos ouvintes. Os resultados baixam para 44% para ‘aniya’, 31% para ‘nuo’ e 15% para ‘anja’. Já para ‘choah’(‘bom’) houve mais confusão do que entendimento, tendo sido transcrito mais frequentemente como ‘boah’(‘olhe’) e ‘moa’(‘pegue’).

Mas segundo os autores este caso, apesar de raro por se tratar de um mamífero, não é exclusivo. Uma foca (Phoca vitulina) chamada Hoover “falava” frases simples em inglês após ter sido criada por um pescador do estado do Maine nos EUA. Uma beluga macho adulta (Delphinapterus leucas) “falava” seu nome ‘Logosi’, e por último, há rumores de um outro macho de Elefante Asiático (Elephas maximus) do zoológico do Cazaquistão que teria sido capaz de “falar” Russo e Cazaque (este eu queria ouvir!).

O incrível também foi perceber que a notícia foi dada de forma simplista na qual os jornais afirmam que Koshik “fala” as tais cinco palavras, sem ponderar que sua imitação é bastante limitada. De fato que é surpreendente para um elefante e mesmo não sendo uma pronúncia perfeita, o fato é que Koshik fala mais coreano do que eu. O pouco que eu aprendi, como não tenho memória de elefante, já esqueci por completo. 🙂

ResearchBlogging.orgStoeger, A., Mietchen, D., Oh, S., de Silva, S., Herbst, C., Kwon, S., & Fitch, W. (2012). An Asian Elephant Imitates Human Speech Current Biology, 22 (22) DOI: 10.1016/j.cub.2012.09.022

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Quanto pode durar o seu pneu novo? Consulte o “treadwear”!

Lateral de um pneu com treadware em destaque.

Lateral de um pneu com treadware em destaque.

Então chegou o dia de levar seu carro para colocar “sapatinhos novos”. Pode ser que você seja uma pessoa precavida e viu que os antigos já não estavam mais em condições, ou quem sabe na vistoria anual o seu carro não foi aprovado. Seja lá qual for o motivo, e aqui espero que não seja a calvície completa dos mesmos, é hora de tomar contato com alguns números mágicos que certamente farão a diferença no seu bolso e/ou no tempo em que terás que novamente colocar a mão nele.

Todo o pneu vem com um festival de códigos crípticos para um não entendedor. Muitos são conhecidos dos técnicos das lojas que vendem pneus, os mais básicos, pois definem se o mesmo é ou não para o seu carro. No entanto, um número específico é pouco conhecido aqui no Brasil e traz em si uma importante informação. Para começar, vamos explorar os mais básicos, aqueles que no manual do seu carro, ou mesmo olhando o seu pneu atual não devem mudar.

O código em geral vem algo como por exemplo, 205/55R16 91V. O primeiro número é a largura nominal do pneu (205 milímetros), depois vem a relação entre a largura e a altura (55%), o R para indicar que o pneu é radial e por fim o aro (diâmetro interno) do pneu em polegadas (16 polegadas). O número seguinte informa a carga (peso) suportada e a velocidade máxima (V) em código (convertido por uma tabela: 615Kg e 240 km/h). Estes dados não devem mudar e podes apenas aceitar um pneu que suporte mais carga e velocidade superior à especificada sem consequências significativas.

Mas é então que surge o número mágico, o que lhe dá a resposta mais importante para o seu bolso e que lhe permite comparar diferentes pneus oferecidos em relação ao preço proposto. Quanto se espera que este pneu dure? Para responder a esta pergunta foi criado o treadwear. Basicamente o que este número indica é o quanto o pneu que estas comprando dura em relação a um padrão estabelecido cujo valor é 100. Se um pneu tem treadwear 200 ele dura em tese duas vezes mais que o padrão de comparação. Assim, para pneus com especificação idêntica e preços iguais, vale mais a pena comprar o de treadwear maior. Obviamente isto não da conta de tudo, mas pode ser um dado central na hora de fazer sua escolha.

Outro dia vivenciei esta situação. Estava selecionando o modelo a ser usado no meu carro que já estava com os seus desgastados e me deparei com duas opções de boas marcas sendo que uma delas além de ser mais barata tinha treadwear mais alto. Não tive dúvida, optei pelo mais em conta e que duraria mais. Mas talvez, se não soubesse disto, tivesse escolhido o outro, pois era da mesma marca que meu carro já usava, apenas por conservadorismo. Saí feliz e satisfeito, pois graças a esta informação pouco divulgada pude optar por uma possível economia futura ao adiar a futura troca por conta da maior durabilidade.

Mas atentem que nem tudo é simples assim. Segundo a regulamentação internacional, uma empresa de pneus recebe a certificação de treadwear para o pneu testado, mas pode colocar um valor abaixo do certificado recebido (acima não!). Por mais que isto não faça sentido, o objetivo é deixar que as empresas usem desta liberdade para criar mercado para diferentes produtos que dispõem. Assim, não leve a ferro e fogo o valor do treadwear, mas considere que ele é uma referência mínima da durabilidade do seu pneu. E antes que eu me esqueça, o treadwear pode ser encontrado na lateral do seu pneu. Boas compras e não deixe seu pneu chegar à calvície, troque antes!

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Popeye sabia de tudo? Proteina de espinafre combinada com silício traz avanços para celulas soláres biohibridas.

Folhas de espinafre

Folhas de espinafre

Que para o Popeye o espinafre era fonte de energia extra, isto todos os que gostam de velhos desenhos animados já sabiam. Mas que a proteina fotosintética (PS1) desta planta e de outras fontes poderia ser usada para a produção de células soláres biohíbridas, isto já é novidade.

Cientístas da Universidade de Vanderbilt (EUA) obtiveram com sanduiches de silicio cobertos de PS1 do espinafre resultados duas vezes e meia superiores à estudos anteriores com celulas solares biohibridas. A esperança é que com o tempo poderemos ter células solares muito mais eficientes.

Mas qual o motivo desta notícia ter tido tanta repercussão? Pesquisas em busca de células solares biohibridas estão em curso, e o tema é árido o bastante para passar longe das primeiras páginas dos jornais (por isso parecem novidade para nós). Além disso, aumentar 2.5x os resultados é muito, mas o que se obteve em termos de energia ainda é muito pouco. E apesar de querermos dar o crédito aqui ao conhecimento milenar do marinheiro, na realidade o truque está do outro lado da equação. Para melhorar o desempenho os pesquisadores modificaram as prorpiedades eletricas do silício para que ele funcionasse melhor com a proteína em questão.

Mais uma vez ficamos diante do dado fora da equação que faz a notícia ser notícia. Não tenho dúvida de que o fator Popeye fez toda a diferença na repercusão da matéria. Será que os pesquisadores já estão mudando seus modelos experimentais para ter melhores resultados de mídia?

ResearchBlogging.orgGabriel LeBlanc, Gongping Chen, Evan A. Gizzie, G. Kane Jennings, & David E. Cliffel (2012). Enhanced Photocurrents of Photosystem I Films on p-Doped Silicon Advanced Materials DOI: 10.1002/adma.201202794

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Se Plutão não é mais planeta, como confiar na ciência?

Marcador de final do percurso de prova ciclística "Plutão" da instalação artistica "Segundo Sol" do artista Andrew Small próximo a Marina de Sunderland (UK)

Marcador de final do percurso de prova ciclística “Plutão” da instalação artistica “Segundo Sol” do artista Andrew Small próximo a Marina de Sunderland (UK)

Durante a sessão de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da ação sobre o direito das gestantes interromperem a gravidez nos casos em que há fetos anencéfalos um argumento da ministra Rosa Weber me surpreendeu. A ministra disse, segundo a imprensa, que “se Plutão até pouco tempo era uma planeta e hoje não é mais, como confiar na ciência?”. Incrível frase, com possível efeito devastador, mas o impressionante é que com este argumento ela votou à favor da legalização do aborto. Assim, com um argumento aparentemente contrário se proferiu um voto favorável.

Mas não entremos aqui em um julgamento da questão em sí. Quero falar do argumento estranho, que aponta para um lado e sustentou outro posicionamento. Mais ainda, não vamos entrar na discussão sobre o que levou ao “rebaixamento” de Plutão, que pode ter conotações da política científica ou de regras para se estabelecer o que é ou não planeta. O ponto é que seja qual for o acordo estabelecido pela ciência ao longo dos tempos, este tem o mérito de não ser monolítico, dogmático ou eterno. Não que estas mudanças sejam simples. De certo que os defensores mais poderosos de uma teoria têm que estar já na cova para que as novas ideias sejam aprovadas. Afinal, somos todos humanos, não? No dia que a ciência for verdadeiramente “vulcaniana” ela não terá mais graça (me perdoem a brincadeira “nerd”). Definir onde se desenha a linha de corte não é nunca uma tarefa simples, Occam que o diga. Sua “faca” está na busca do caminho mais simples, mas isto nem sempre o é. 😉

Mas o que prevalece aqui, nesta fala da ministra é uma profunda incompreensão do que é o processo da ciência. Com todas as suas questões, falhas e instabilidades, ainda é o que temos de melhor na busca do conhecimento. É como aquela frase que Winston Churchill disse “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos” (valha-me Nossa Senhora das Citações Encontradas na Internet). A conclusão para mim é de que precisamos dar mais apoio aos nossos juízes quanto as questões científicas, mas sem que tomemos partido da ciência em si.

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