Marcador de final do percurso de prova ciclística "Plutão" da instalação artistica "Segundo Sol" do artista Andrew Small próximo a Marina de Sunderland (UK)

Marcador de final do percurso de prova ciclística “Plutão” da instalação artistica “Segundo Sol” do artista Andrew Small próximo a Marina de Sunderland (UK)

Durante a sessão de julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da ação sobre o direito das gestantes interromperem a gravidez nos casos em que há fetos anencéfalos um argumento da ministra Rosa Weber me surpreendeu. A ministra disse, segundo a imprensa, que “se Plutão até pouco tempo era uma planeta e hoje não é mais, como confiar na ciência?”. Incrível frase, com possível efeito devastador, mas o impressionante é que com este argumento ela votou à favor da legalização do aborto. Assim, com um argumento aparentemente contrário se proferiu um voto favorável.

Mas não entremos aqui em um julgamento da questão em sí. Quero falar do argumento estranho, que aponta para um lado e sustentou outro posicionamento. Mais ainda, não vamos entrar na discussão sobre o que levou ao “rebaixamento” de Plutão, que pode ter conotações da política científica ou de regras para se estabelecer o que é ou não planeta. O ponto é que seja qual for o acordo estabelecido pela ciência ao longo dos tempos, este tem o mérito de não ser monolítico, dogmático ou eterno. Não que estas mudanças sejam simples. De certo que os defensores mais poderosos de uma teoria têm que estar já na cova para que as novas ideias sejam aprovadas. Afinal, somos todos humanos, não? No dia que a ciência for verdadeiramente “vulcaniana” ela não terá mais graça (me perdoem a brincadeira “nerd”). Definir onde se desenha a linha de corte não é nunca uma tarefa simples, Occam que o diga. Sua “faca” está na busca do caminho mais simples, mas isto nem sempre o é. 😉

Mas o que prevalece aqui, nesta fala da ministra é uma profunda incompreensão do que é o processo da ciência. Com todas as suas questões, falhas e instabilidades, ainda é o que temos de melhor na busca do conhecimento. É como aquela frase que Winston Churchill disse “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos” (valha-me Nossa Senhora das Citações Encontradas na Internet). A conclusão para mim é de que precisamos dar mais apoio aos nossos juízes quanto as questões científicas, mas sem que tomemos partido da ciência em si.

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