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Categoria: ensaios

Night Sailing

As vezes, enquanto navego pela esquerda e direita, perdido nos links da noite, penso no tempo gasto e no quanto somos escravos deste preenchimento. Sozinho, o silêncio, o vazio, a página em branco da vida, sem a necessidade de largar-lhe tinta, parece quase impossível de suportar. Quantas memórias foram esquecidas? Que re-enredos contamos daquilo que não temos mais suporte para lembrar? Mas se o tempo é medida relativa, daquelas contadas de onde o seu peito é o lugar, eu puxo hoje a corda, espero a próxima parada, para num minuto de silêncio saltar.

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About to burn

Depois de duas semanas mais que intensas, estava eu trabalhando em casa. A rotina, as responsabilidades, as respostas que somos cobrados. Algumas noites só com quatro a cinco horas de sono. Pouco repousante, claro, porém era o possível, e o café fazia parecer que dava.

Tinha aqui mais um prazo se acabando, e algo mais para dar conta. Parei por um momento. No relógio, 10h30 da manhã. Tinha acordado 05h30 e já estava por três horas tentando fechar, ou adiantar, mais uma tarefa.

Mas eis que meu corpo, minha mente, tudo em mim, pedia por uma pausa. Preparei um chá, daqueles mais relaxantes, e tomei pausadamente sentado na sala olhando o horizonte. Então voltei para meu quarto e calmamente me deitei na cama.

Foi um sono de algo como uma hora apenas, onde o tempo parou, e giraram no ar os pratinhos do malabarista chinês que por vezes sou. Sem impulso, só por inércia. Tremulando, querendo perder sustentação. Porém, descansei. Não cairão, e se for para cair, que seja o excesso que não sou capaz de cumprir.

Nesta hora sonhei profundamente com campos. Não os de pesquisa, mas aqueles nos quais corremos na infância que tivemos. Sonhei com amores, com abraços, com o amarrar dos cadarços antes da brincadeira da tarde.

Dormi com a verdade que o tempo, neste momento, parou. Ao menos para mim.

Bom dia!
Que a roda viva
não é ciranda
e mais uma vez se inicia.

Dataísmo

Os dados não são a realidade.
Lançados no tecido do tempo,
mostram-nós apenas uma de suas faces.

E há quem os olhem de cima,
outros de lado,
alguns até os preveem de baixo.

A realidade não está nos dados.
Só a sorte nos é por eles lançada.

A cada relance…

Ensaio sobre a semi-cegueira

Aposentei meus óculos antigos em troca de um atualizado. Incrível como o mundo ficou mais claro e nítido. Olhei meu rosto e vi as linhas que não via, e por um momento pensei em voltar para a velha “semi-cegueira” que tinha.

A realidade chega a ser rude, mas estou mais velho. Não são só aqueles cabelos brancos próximos das temporadas, ou os fios de barba que largaram o quase ruivo por um alvo encaracolado.

Cheguei numa idade que, lembrando-me bem, quando era criança não me imaginava. Me espelhava nos meus pais, não nos meus avós. Via nos últimos algo inalcançável. Era como se eles sempre tivessem sido velhinhos. E meus pais estariam ali, pelos 40 e alguma coisa, esperando eu amadurecer e dar um abraço neles, dizendo “Enfim cheguei em vocês”.

O tempo passa e o passado fica maior, vai ficando gigante, e o futuro não é mais uma aposta a ser dobrada. Hoje, ele já me dobra, e me cobra em pequenas dores por posições mal dormidas, por comidas temperadas, por bebidas em demasia.

Mas, no fundo, o que me faz pensar, o que me faz refletir, é o reflexo no espelho. Aquele que esteve embaçado por uma lente velha e arranhada, fora do grau que era preciso. E a falta de precisão que foi por necessidade.

Sobre sua guarida

Em nossos portos, por vezes, as cordas são fracas
E, mesmo assim, é com elas que se amarraram os navios
Conta-se nesses momentos com a brandura dos ventos
Daqueles que balançam as velas, mas não apagam pavios

E quando a tempestade se inflama, e o mar se irrita
A cada vaga que sobe, em meio a tripulação que grita
Entreolham-se às amarras, suplicando soltura e saída
Porque é melhor sair navegando, do que naufragar na guarida

Generosidade

Ele não era do diálogo
Ela nem ouvia seus monólogos
Ele era convencido
Ela era mais complexa
Ele se dizia doutor
Ela estava doutorando e andando para isso
Ele achava que tinha um título
Ela estava certa de ter uma história
Ele não sabia o que fazer com as mãos
Ela era analógica, digital e ambidestra
Ele era monocromático
Ela era pura aquarela
Ele tomava qualquer uma se for gelada
Ela só bebia o que era candente
Ele era ele, sempre ele
Ela era sobre muito mais que ela
Ele queria seu epitélio
Ela escreveria seu epitáfio
Porque ele só queria um bundão
E ela sabia que ele era um

C’est ne pas un haiku

Não sei se existe o tal do multiverso
Mas se não existir aqui um eu faço
Juntando sentidos que viro do avesso
Só pra tatuar o Haikai no meu braço

 

Os passos

Eram segredos que guardávamos
Em mensagens instantâneas apagadas
Algo como um tempo que não houve
Ou apenas aquilo que chamou-se um dia
De passado.

Só que analógico…

sobre a segurança

Havia uma segurança
Ela que nunca era certa
O beco, a noite, os passos rápidos
Nada disso nos evitava

Mas nós seguíamos também escondidos
Nas grades, nas cercas
Nos arames farpados
Como gado que se contenta em ser contido

Mas como o mundo lá fora grita
E a vida clama por ser vivida
Você se joga, porque o risco é só um traço
E seu fim será sempre mera estatística

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