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Categoria: ensaios

About to burn

Depois de duas semanas mais que intensas, estava eu trabalhando em casa. A rotina, as responsabilidades, as respostas que somos cobrados. Algumas noites só com quatro a cinco horas de sono. Pouco repousante, claro, porém era o possível, e o café fazia parecer que dava.

Tinha aqui mais um prazo se acabando, e algo mais para dar conta. Parei por um momento. No relógio, 10h30 da manhã. Tinha acordado 05h30 e já estava por três horas tentando fechar, ou adiantar, mais uma tarefa.

Mas eis que meu corpo, minha mente, tudo em mim, pedia por uma pausa. Preparei um chá, daqueles mais relaxantes, e tomei pausadamente sentado na sala olhando o horizonte. Então voltei para meu quarto e calmamente me deitei na cama.

Foi um sono de algo como uma hora apenas, onde o tempo parou, e giraram no ar os pratinhos do malabarista chinês que por vezes sou. Sem impulso, só por inércia. Tremulando, querendo perder sustentação. Porém, descansei. Não cairão, e se for para cair, que seja o excesso que não sou capaz de cumprir.

Nesta hora sonhei profundamente com campos. Não os de pesquisa, mas aqueles nos quais corremos na infância que tivemos. Sonhei com amores, com abraços, com o amarrar dos cadarços antes da brincadeira da tarde.

Dormi com a verdade que o tempo, neste momento, parou. Ao menos para mim.

Bom dia!
Que a roda viva
não é ciranda
e mais uma vez se inicia.

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Dataísmo

Os dados não são a realidade.
Lançados no tecido do tempo,
mostram-nós apenas uma de suas faces.

E há quem os olhem de cima,
outros de lado,
alguns até os preveem de baixo.

A realidade não está nos dados.
Só a sorte nos é por eles lançada.

A cada relance…

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Ensaio sobre a semi-cegueira

Aposentei meus óculos antigos em troca de um atualizado. Incrível como o mundo ficou mais claro e nítido. Olhei meu rosto e vi as linhas que não via, e por um momento pensei em voltar para a velha “semi-cegueira” que tinha.

A realidade chega a ser rude, mas estou mais velho. Não são só aqueles cabelos brancos próximos das temporadas, ou os fios de barba que largaram o quase ruivo por um alvo encaracolado.

Cheguei numa idade que, lembrando-me bem, quando era criança não me imaginava. Me espelhava nos meus pais, não nos meus avós. Via nos últimos algo inalcançável. Era como se eles sempre tivessem sido velhinhos. E meus pais estariam ali, pelos 40 e alguma coisa, esperando eu amadurecer e dar um abraço neles, dizendo “Enfim cheguei em vocês”.

O tempo passa e o passado fica maior, vai ficando gigante, e o futuro não é mais uma aposta a ser dobrada. Hoje, ele já me dobra, e me cobra em pequenas dores por posições mal dormidas, por comidas temperadas, por bebidas em demasia.

Mas, no fundo, o que me faz pensar, o que me faz refletir, é o reflexo no espelho. Aquele que esteve embaçado por uma lente velha e arranhada, fora do grau que era preciso. E a falta de precisão que foi por necessidade.

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Sonhos universais

Era uma vez um par de pedras
Geladas nos confins do universo
Giravam uma ao redor da outra
Sozinhas em uma dança eterna

– E o que fazia elas ficarem juntas?
– Sabe, pequena, era a gravidade.
A gravidade é como uma corda,
que une duas coisas na lonjura do céu.

– E por que elas não se separam?
– Porque estão ligadas,
de um jeito que ninguém pode ver.
Como que apaixonadas uma pela outra.

– É como amar? É com o coração?
– É parecido. Sabe, a gravidade é assim.
Se for forte demais, as pedras se chocam
não conseguem permanecer sozinhas

– Tem que ter um equilíbrio, uma dose certa
assim, uma gira ao redor do outro,
uma vê o brilho do outro, se admira,
como a Terra vê a Lua, banhadas pela luz do Sol.

– E o que aconteceu com as pedras?
– Ah, sim, as pedras. Elas estavam lá
Bailando no frio escuro do espaço
Mas felizes por terem uma a outra

– Era frio e escuro? Devia ser ruim…
– Era como tinha que ser. Quase no fim do universo.
Mas isso ia mudar. Esta é uma história de dormir, lembra?
E tudo começou quando uma outra pedra pequena chegou

– Pequena como uma criança?
– Sim, pequena assim, em relação as outras duas.
E ela, ao surgir e passar pelas duas,
fez com que elas saíssem do infinito para um passeio

– Passear é legal! Foram para um parque?
– No universo os passeios normalmente são na direção das estrelas.
e foi esse caminho que as três tomaram
Escolheram uma, ou uma as escolheu (sabe, a tal da gravidade apaixona)

– Deve ter sido uma bem bonita e grande!
– Deve mesmo. Elas estavam longe, tinha que ser uma legal.
Então, foram na direção desta, a cada ano-luz indo mais rápido.
Girando as três num ballet de deixar qualquer um maravilhado

– Ano-luz? Ano ou luz? Como assim?
– Ano-luz é uma velocidade. É a distancia que a luz anda em um ano.
– A luz anda? A luz é a luz, pai!
– A luz anda, mas é muito rápido, só as estrelas conseguem perceber.

– Ah, bom. Porque gente mesmo não percebe.
– Pois é, mas a gente sabe das coisas.
A gente estuda as estrelas e aprende com elas.
Dai, sabemos medir o tal ano-luz.

– Tá bom, mas me conta das pedras. E da pedrinha neném.
– Era já uma mocinha esta pedra, e junto com as duas cirandava.
E foram acelerando na direção da estrela
sentindo lentamente o calor que ela emanava

– Ah, melhor do que o frio. Vai ficar quentinho agora.
– Vai mesmo. Cada uma das pedras tinha um monte de gelo envolta.
E derretendo iam deixando para trás um rastro de poeira
de tudo o que estava descongelando.

– Elas vão ficar mais magrinhas com isso.
– De certa forma, mas não era muita coisa.
Ao mesmo tempo, era essa poeira que ia fazer
tudo ficar muito especial e bonito.

– Seeeeeério? Poeira não deixa nada bonito.
– É que essa poeira era especial.
Ela refletia a luz do Sol!
E assim, brilhava ao redor das pedras e esticava como uma grinalda com véu comprido.

– Grinalda é aquilo que as noivas usam, né?
– Isso, mas neste caso é uma grinalda de poeira
linda, brilhante e cada uma das pedras tinha seu véu
se embolando na dança que o trio fazia neste passeio ao Sol

– Mas como você sabe disso? Quem te contou?
– Esta é uma história de dormir, lembra?
E nesta história tinha um planeta azul pequeno
que girava apaixonado ao redor deste mesmo Sol (essa gravidade…)

– Esse planeta era aqui?
– Aqui, neste céu, onde uma pequena menina olhava
e nesta noite pode ver três cometas num mesmo dia
girando um ao redor do outro, numa folia…

– Pai, isso aconteceu? Quando foi?
– Foi no seu sonho, no meu, e no de quem acreditar
E cada um que viu este passeio, se apaixonou por elas
Por elas, pela gravidade, e por todo o universo.

 

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One in a million

Era uma vez um grão de milho
Junto com milhares de outros num armazém em um saco
Queria ele decidir seu destino
Em meio ao debate que se seguia entre os colegas ao seu lado

De um lado, os mais tranquilos,

queriam que um dedo os cravasse no solo
que o chuva molhasse a terra
que o broto se formasse de suas entranhas
que o pé nascesse e crescesse
que o vento soprasse em suas folhas
que a espiga abrigasse seus frutos

tudo na mais tranquila calma
de Sol à Sol, durante todas as fases da Lua
E assim, de um seriam centenas
Como a sensação das horas passadas

Do outro, os mais agitados

Em grupo queriam a surpresa
Juntos queriam o calor da chama ardente
Corajosos queriam enfrentar o óleo quente
Bravos queriam ser jogados de lado a lado
Resistentes queriam o sal ou o doce caramelado
Estrondosos queriam a quase coletiva explosão

Como em uma apoteose de um show queriam ser pipoca
Sair fumegando da panela ao pote gélido
Assistir juntos as últimas cenas de algo
Centenas vivendo por um breve minuto em êxtase

Não era decisão fácil,
viver calmamente para gerar centenas
ou em meio a centenas experimentar um momento único de transformação

E, em poucos minutos,
estas eram as supostas escolhas daquele grão
Mas o destino não estava em suas mãos,
e sim na que pega as sacas

Mas por sorte, grãos de milho que não somos,
podemos plantar raízes no chão
e viver êxtases de pipoca

Porém, se lhe fosse única a escolha
Qual seria seu destino?
Um milho para gerar milhão
ou ir-se junto com um milhão de milhos?

Popcorn is just a way that corn found to become pop.

 

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Sobre sua guarida

Em nossos portos, por vezes, as cordas são fracas
E, mesmo assim, é com elas que se amarraram os navios
Conta-se nesses momentos com a brandura dos ventos
Daqueles que balançam as velas, mas não apagam pavios

E quando a tempestade se inflama, e o mar se irrita
A cada vaga que sobe, em meio a tripulação que grita
Entreolham-se às amarras, suplicando soltura e saída
Porque é melhor sair navegando, do que naufragar na guarida

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Generosidade

Ele não era do diálogo
Ela nem ouvia seus monólogos
Ele era convencido
Ela era mais complexa
Ele se dizia doutor
Ela estava doutorando e andando para isso
Ele achava que tinha um título
Ela estava certa de ter uma história
Ele não sabia o que fazer com as mãos
Ela era analógica, digital e ambidestra
Ele era monocromático
Ela era pura aquarela
Ele tomava qualquer uma se for gelada
Ela só bebia o que era candente
Ele era ele, sempre ele
Ela era sobre muito mais que ela
Ele queria seu epitélio
Ela escreveria seu epitáfio
Porque ele só queria um bundão
E ela sabia que ele era um

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C’est ne pas un haiku

Não sei se existe o tal do multiverso
Mas se não existir aqui um eu faço
Juntando sentidos que viro do avesso
Só pra tatuar o Haikai no meu braço

 

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Os passos

Eram segredos que guardávamos
Em mensagens instantâneas apagadas
Algo como um tempo que não houve
Ou apenas aquilo que chamou-se um dia
De passado.

Só que analógico…

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sobre a segurança

Havia uma segurança
Ela que nunca era certa
O beco, a noite, os passos rápidos
Nada disso nos evitava

Mas nós seguíamos também escondidos
Nas grades, nas cercas
Nos arames farpados
Como gado que se contenta em ser contido

Mas como o mundo lá fora grita
E a vida clama por ser vivida
Você se joga, porque o risco é só um traço
E seu fim será sempre mera estatística

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