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Categoria: resenha

O que nós acreditamos, mas não podemos provar

Tudo o que precisamos são provas, para assim poder chegar na verdade. Será? Bem, em ciência fatos e dados são uma das linhas de frente para as pesquisas. Para julgamentos de crimes praticados, a prova cabal é buscada com afinco pelos investigadores também. Assim, a frase “Não temos provas, mas temos convicção” atribuída falsamente à um membro do Ministério Público Federal causaria naturalmente grande repercussão nas redes sociais. Mas, mesmo na ciência, muitas questões pairam nas mentes de pensadores quanto ao que se acredita, mas não se pode ainda provar.

What We Believe But Cannot Prove

What We Believe But Cannot Prove

Este é o tema de “What We Believe but Cannot Prove: Today’s Leading Thinkers on Science in the Age of Certainty (Edge Question Series)” editado por John Brockman. Neste livro, respostas à uma pergunta feita pela Fundação Edge são respondidas por 107 colaboradores que vão de Richard Dawkings a Craig Venter. O objetivo era basicamente levantar temas os quais aqueles que estão nas fronteiras da pesquisa acreditam, mesmo que ainda não tenham reunido provas para definitivamente comprovar. O que parece contra uma visão purista da ciência é na realidade algo corriqueiro. Considerar uma imparcialidade total dos atores dos processos de pesquisa seria na verdade ingenuidade. Há o claro exercício de se pôr à prova tudo o que pensamos ou teorizamos, mas não se pode desumanizar a ciência e seus processos. E não passou desapercebido o desconforto dos respondentes em se deixar levar e falar sobre suas suposições mesmo que não embasadas em fatos.

Este é um livro que tive contato rápido e está na minha lista de leitura faz um bom tempo. Lembrei-me exatamente por conta desta polêmica, e cheguei a ler uns ensaios dele online. Mas como diria Silvio Santos, “Eu não vi, mas meus funcionários gostaram”, ou seja, se acharem que vale a leitura completa, deixem uma mensagem. Tenho convicção de que vocês vão gostar.

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A “Tradicional Família de Propaganda de Margarina” e os divórcios no Maine EUA.

“Os números comprovam coisas”. Assim pensam aqueles que acreditam sem juízo nas estatísticas. Mas sem contexto, sem pensar se realmente uma coisa tem relação com a outra, podemos ser surpreendidos por aquilo que pelo acaso apresenta correlação perfeita. Assim, a população de pinguins de uma determinada espécie que habite uma ilha Antártica pode andar em linha com as instalações de Linux, ou quem sabe a produção de maças da variedade McIntosh cultivada no leste do Canadá seja um ótimo indicador da oscilação das ações da Apple.

Maçã da variedade McIntosh

Maçã da variedade McIntosh

Por conta disso, é sempre importante ver se o que se deseja testar faz algum sentido. O que você vai obter com seu teste ou com sua análise de agrupamento é uma resposta, quer você tenha feito tudo certo ou errado, que vai dizer se há ou não motivo para suspeitar que os dados aportados tem relação ou como estes deveriam ser agrupados a partir do que foi fornecido. Veja, você terá uma resposta, mas quem fez a pergunta, doida ou não, foi você. Não vai adiantar botar a culpa nos números ou achar que se está dito assim, logo algo deve ser torcido na relação espaço tempo para acomodar o absurdo proposto.

Não infrequentemente, vamos nos deparar com erros no uso ou na interpretação de dados a partir da aplicação de alguma metodologia, a qual simplesmente foi feita pelo pesquisador porque “todo mundo faz assim” e se “x<y” ou se “a” juntou com “b”, logo, que assim seja. Não é para menos que hoje o artigo com maior índice no Altmetric Attention Score seja um no qual se trata do mau uso do p – probabilidade de significância – estatístico [dx.doi.org/10.1038/506150a]. É para se pensar, e pensar novamente.

Por outro lado, para dar maior visibilidade a este absurdo, Tyler Vigen produziu uma série de casos de correlações espúrias no livro “Spurious Correlations”. Nele você poderá ver que ao contrário do que se pensa, consumir mais margarina não leva a famílias tradicionais mais felizes. Há uma correlação quase perfeita com a redução deste consumo e do número de divórcios.

Proporção de divórcios e per capta do consumo de margarina no estado do Maine - EUA

Proporção de divórcios e per capta do consumo de margarina no estado do Maine – EUA

Ao menos no estado do Maine – EUA, quanto menos famílias margarina, mais casamentos duradouros. Bem que eu nunca achei que ela serviria para besuntar as relações familiares. O absurdo da mensagem publicitária já falava por si só. Entretanto, é bem provável que hoje exista no Maine uma paróquia na qual se apregoe o uso da manteiga. Até o dia em que o pároco vá ver o Último Tango em Paris.

Mas, para aqueles que tem fé nos números, insisto que este post não se propõe a ser um desmonte. Apenas gostaria de alertar que cuidado e boas perguntas científicas nunca fizeram mal à ninguém. E se sabemos que o Aquecimento Global tem correlação perfeita com o desaparecimento dos piratas, o mundo tem salvação! Ahoy! 🙂

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Da bibliometria à webometria: dez anos do primeiro ensaio webométrico brasileiro

Há aproximadamente 10 anos atrás foi submetido para publicação o primeiro ensaio sobre a webometria em uma revista nacional. Trata-se do artigo de Nadia Vanti para a revista Ciência da Informação (da bibliometria à webometria) e este é leitura obrigatória, em conjunto com o artigo de 2005 (os links e os estudos webométricos). Nádia foi pioneira e seu texto, quando tive a oportunidade de me deparar, foi “food for thought”, um passeio pelos campos métricos da ciência da informação até desembocar nas abordagens iniciais webométricas. Um convite para conhecer este novo campo de estudo, e ainda hoje um começo para nós que certamente gostamos de ler em nossa língua materna.

Mas o interessante é que antes deste ser apenas um texto de releituras ele propôe questões para nós que nos tornamos amantes do tema. Lança a discussão, mais detalhadamente tratada no segundo artigo, da inserção completa do campo da webometria dentro da bibliometria, partindo de uma reflexão quanto ao conceito de informação registrada. De fato, nada é mais registrado no mundo do que o que se passa na Internet, assunto de outro post (ver: O quão privado é o mundo da Internet?). Mas o conceito de registro, dentro da efemeridade de algumas informações na rede, ou mesmo da instabilidade dos seus conteúdos, pode fazer com que tenhamos que lidar com outras formas de coleta de dados e também com a dificuldade de levantar o passado (ver: Internet Archive, a arqueologia da web disponível para todos). No gráfico, os campos da webometria, bibliometria e cienciometria (sic) se sobrepõe com a informetria englobando todos eles. Ainda não é introduzido aqui o campo da cibermetria, algo que entra em questão apenas no artigo subsequente, mas esta já é uma proposta que vai de encontro a proposta de Lennart Björneborn e Peter Ingwersen.

Diante desta questão não trivial, restou-me ao longo do tempo imaginar estes campos e suas sobreposições em busca de um esquema que fosse para mim o ideal. Ainda estou neste caminho, e o tempo, 10 anos depois, pode ser que me sirva de inspiração para uma proposta de revisão destes modelos, em função até mesmo das mudanças que ocorreram no campo da webometria e na Web em si. Mais algum tempo e eu chego lá. 😉

ResearchBlogging.orgVanti, Nadia Aurora Peres (2002). Da bibliometria à webometria: uma exploração conceitual dos mecanismos utilizados para medir o registro da informação e a difusão do conhecimento Ciência da Informação, 31 (2), 369-379 DOI: 10.1590/S0100-19652002000200016

 

ResearchBlogging.orgVanti, Nadia (2005). Os links e os estudos webométricos Ciência da Informação, 34 (1), 78-88 DOI: 10.1590/S0100-19652005000100009

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