encontre o macaco nesta foto

Dia de domingo de Sol, tudo bonito e uma criança para entreter. E a família faz planos, pensa no que será uma grande opção de programa, uma oportunidade de estar junto e poder curtir um passeio com direito a muita conversa depois sobre tudo o que se viu. Seria uma maravilha, um momento para não se esquecer (e de fato não esquecerei), mas desde o desembarque na Quinta da Boa Vista as coisas mudaram.

Mudaram em diversos sentidos. Mudaram porque de alguma forma as coisas chegaram para mim a um ponto em que retornar seria impossível. Não digo no sentido de voltar para casa, mas no de ser como antes, como um dia já foi para mim. Retornar a este lugar que tantas vezes voltei e que a cada ida ia tomando consciência de algo que sempre esteve estampado na minha frente. Não sei também dizer se a ida ao Zoológico de Gramado fez a diferença, ou se para mim a estrutura de lá seja suficiente para me convencer de que nem tudo é tão ruim assim como eu vi, entendi ou vivi. Sei que foi um dia de Sol em que meu espírito ficou nublado.

Andar pelas áleas do Zoológico do Rio de Janeiro e ver o estado deplorável de sua estrutura já seria o bastante para deixar qualquer um infeliz com o que o “estado” considera como aceitável oferecer para a população. Pior ainda era ver os animais nas mesmas condições de espaço exíguo e de pouca atenção que pareciam gozar. Nada que tenha mudado muito com o tempo, apenas uma piora a cada ano, lenta, mas porque não dizer possivelmente letal para a alma. Ou talvez o ambiente não tenha mudado tanto assim, talvez eu tenha mudado. Mudado talvez por não admitir mais “ver o circo” e achar que o “palhaço” sorri por sua cara pintada, mesmo se a lagrima lhe escorre do rosto.

E daí, diante de cada olhar dos cativeiros, de cada face entediada, dos passeios confinados, da angustia de ver nossos irmãos presos por um crime que lhes é imputado (o de ser selvagem ou ter nascido de ventre de cativeiro), me questionei como parte deste ciclo mantenedor do “show room animal”. Senti-me ali dividido como pai que queria mostrar de perto os animais que habitam os sonhos de criança de minha filha expressos na realidade depressiva e repreensível para qualquer um que tenha dó no coração. E diante disso, me perguntei: como fazer para conciliar o aprendizado do amor pela diversidade dos bichos da natureza e a condição mínima de conforto e dignidade para o detento exposto a cada dia.

Sei que a dó, o sentimento de humildade diante dos seres vivos que usamos e abusamos para tudo o que fazemos, desde a construção de nosso progresso enquanto civilização humana, até os experimentos necessários aos estudos de curas para as doenças, nos perpassa como cientistas e que temos que lidar com isto. Ví ao longo de minha faculdade colegas que verdadeiramente sentiam profundo pesar por ter que optar por modelos animais para seus estudos e que o faziam, e certamente até os dias de hoje o fazem, com critério, cuidado e ética.

Mas a dúvida aqui, num Zoológico como o de nossa cidade, é saber por que não podemos ter algo melhor, minimamente digno e que busque muito mais ser um espaço de aprendizado e de busca por um dialogo com as ideias de conservação e menos um “depósito de figurinhas”, onde para completar o álbum certamente precisamos de certos bichos encontrados em todos os lugares do mundo. Não tenho respostas para o que fazer deste lugar, só sei que minha ideia de passeio virou um pesadelo interno e que me prometi, pelo menos a este, nunca mais voltar.

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